Aos olhos do freguês

Na minha incansável missão de fazer meus filhos gostarem de ler, esses dias lancei mão de uma nova tática: peguei furadeira, parafusos e pregos e parti para a ação! E ninguém precisa se assustar, viu? Não resolvi colocar em prática alguma experiência louca com as crianças. Apenas criei um cantinho de leitura no quarto deles, deixando tudo mais colorido e atraente. O resultado?

Nem eu tinha ideia da enorme quantidade de livros que nossa biblioteca já tem! Tirei tudo de dentro de uma caixa de madeira, onde ficavam escondidos, e trouxe para uma estante. Optei também por não colocar todos empilhados, lado a lado. De propósito, arrumei como se fosse uma vitrine. Agora, gibis, livrinhos, livrões e cadernos de colorir convivem em harmonia, ao alcance das mãos do Rafa e da Juju.

E que diferença! Agora é impossível eles entrarem no quarto ou irem para a cama sem passar pela nossa biblioteca. É nítida a diferença do comportamento deles em relação à leitura: muitas vezes entro no quarto e me deparo com cenas lindas como essas!

São pequenas atitudes que fazem uma enorme diferença nesse longo – e recompensador! – caminho pelo mundo da leitura. Quer contar pra gente alguma experiência sua que tenha dado certo em casa? Vamos compartilhar!

Lá vem a onda!

Eu nasci e cresci na beira da praia. Em um tempo em que Boa Viagem, em Recife, ainda tinha uma larga faixa de areia branquinha quando a maré baixava e as piscininhas de arrecifes apareciam. Meu marido nasceu no sul, em uma cidade que não tem praia, mas, mesmo assim, curtiu muitos veraneios no litoral, virou surfista e sente uma necessidade até maior do que eu de estar perto do mar. Nossos filhos foram apresentados à alegria de pisar na areia desde bem pequenininhos, bebezinhos de colo. Depois da estréia, os meninos já tiveram inúmeras oportunidades de curtir férias na praia, de um lado a outro do país. É muito bom ver que a relação deles com o mar, as ondas, o sol e a natureza está bem estabelecida. Augusto, inclusive, aos quase oito anos, está dando as primeiras braçadas em sua “carreira” de surfista!

Estou contando essa história porque ontem, enquanto arrumava os livrinhos no quarto deles, esbarrei em um exemplar que considero dos mais bonitos que os meninos têm. Chama-se Onda, de Suzy Lee, edição da Cosac Naify. É um livro sem palavras – só ilustrações. Eu recomendo pra crianças e adultos também! São lindíssimas ilustrações que contam desse momento de estréia de uma menininha na praia, diante do mar. O livro tem apenas três cores: azul, branco e preto. Mas é suficiente pra contar uma história muito rica e mostrar uma profusão de sentimentos diferentes. Está ali tudo o que as ondas podem despertar em quem está conhecendo a energia do mar pela primeira vez: alegria, medo, dúvida, raiva, excitação…

Aqui em casa, olhar o livro com os meninos foi uma oportunidade para “alinhavar” a história deles junto com a história que a autora imaginou e desenhou ali. Foi a chance de falar da história da mamãe e do papai também e de quantas vezes, quando eu era pequena que nem a menininha, eu corri, com medo, de uma onda gigante ou, feliz, coloquei o pé, bem de levinho, para sentir aquela espuma que fica na areia depois da lambida que o mar dá. Um livro, feito de palavras ou de ilustrações, tem mesmo o poder de nos transportar para outro lugar.

O começo de tudo

Ser mãe nos dias de hoje é uma tarefa, digamos, desafiadora! Em tempos de Internet, eletrônicos de todos os tipos e desenhos a cada dia mais atraentes, apresentar o mundo da leitura a uma criança e fazê-la descobrir que, sim, há diversão e aventura por trás das letrinhas é quase uma missão impossível…

E eu já estava até me conformando com a frase “eu odeio ler”, repetida aos quatro quantos por Rafinha, meu mais velho, de sete anos. Pensava com meus botões: “Como pode um filho e neto de jornalistas não gostar de ler?”. Nos meus devaneios, imaginava o moleque grande, sem vocabulário, pouco curioso e com um mundo limitado e sem grandes inspirações… Não pode, né? Continuar lendo

Os fantásticos livros voadores do Sr. Morris Lessmore

O curta-metragem The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore ganhou o Oscar de curta de animação na semana passada. Se você ainda não viu, veja! São 15 minutinhos que vão te emocionar, como me emocionaram. Sério, eu quase cheguei a soluçar no final, de tão lindo.

O filme não tem uma fala sequer, a linguagem dele é universal e mostra como os livros podem mudar nossas vidas.

Uma estrada cheia de letras

Exemplo é tudo na vida

Exemplo é tudo na vida. Essa é minha Rafaela em 2005,com 1 ano e 10 meses

Uma estrada cheia de letras

Enfim chegou o dia de minha estréia. Fiquei um pouco apreensiva: uma médica em meio a três jornalistas hábeis com as palavras. Devo dizer que não são as diferenças que nos unem e sim as afinidades. Então, somos mães, adoramos um livrinho e, além de ter algo a dizer, queremos ouvir o que há para ser feito para que nossos pequenos se tornem pessoas incríveis. Acredito profundamente que essa transformação esteja relacionada ao repertório que oferecemos a eles: da música, passando pela nossa conversa com um vizinho que encontramos no elevador, e chegando em algo palpável e classicamente relacionado à educação, que é o livro. Ah, o livro! Tenho um amor enorme, do tipo extra G, por livros. O cheiro, a cor, as letras, a capa, tudo me atrai. Tenho muito mais livros do que consigo ler. No entanto, o ter me conforta. De quando em quando os pego, folheio, grifo uma frase e volto a guardar. Como todo bom amor, mesmo não estando tão presente, às vezes, eu sei que ele está lá, ao meu alcance.

Tudo começou com Monteiro Lobato e sua Coleção, em capa dura, do Sítio do Pica Pau Amarelo. Letra grande, alguns desenhos simples em preto e branco e um encanto sem fim despertado. Para completar, uma prima uns anos mais velha que, naturalmente, lia mais rápido e com melhor compreensão; uma outra prima, com a mesma idade que eu e uma irmã mais nova, que, politicamente correto ou não, dá uma melhorada na nossa auto-estima! O clube do livro estava formado! Entre gozação sobre “você não entendeu nada e só leu” até realmente chegar na troca de informações e impressões. Interessante pensar sobre esse ponto de vista: tínhamos um clube de livro e não sabíamos! Ainda nessa época, década de 70, passava o programa do Sítio na Globo. Nossa imaginação misturava-se com o que víamos e tudo, tudo parecia possível. Como, de fato, tudo é possível quando fazemos a leitura por completo, não só se deixando conduzir pelo escritor(a), mas também utilizando nossos caminhos de interpretação.

E é esse caminho, o meu, que construí a partir de tudo que foi me oferecido na infância, pelos livros lidos, músicas, cheiros, lugares que conheci e vivi e principalmente pelo exemplo de ter uma mãe leitora, com a cabeceira da cama sempre com uma pillha de livros e um pai que lia mais pontualmente, porém sempre algo diferente e muito interessante aos meus olhos. É exatamente esse caminho que me capacitou e me dá a possibilidade de mostrar como se abrir e criar novas ruas, avenidas, estradas para o pensamento. Diferentes e melhores, sempre melhores!