Que tal retomarmos o papo sobre livros para crianças?

lendo
fonte

O blog ficou às moscas por quase um ano. Desculpem!

O fato é que deu vontade de voltar a escrever aqui e compartilhar minhas descobertas de autores e ilustradores de livros infantis.

Eu sou uma ávida leitora. Mas nem sempre foi assim, sabe? O hábito da leitura foi algo que se desenvolveu aos poucos na minha vida. Tento lembrar das minhas primeiras memórias de leituras, dos primeiros livros lidos, e não consigo lembrar de muita coisa. Aí fiquei pensando desde quando eu tenho a consciência de que gosto de ler? Até bem pouco tempo, as minhas mais remotas lembranças de livros favoritos datavam dos meus 12 ou 13 anos, quando fissurei na obra da Agatha Christie. Recentemente, consegui cavar mais fundo no meu baú de lembranças e redescobri outros autores e livros que eu curtia quando menor, talvez 10 ou 11 anos.

Tenho lido muito sobre livros infantis e vejo pessoas citando livros favoritos da primeira infância. Eu não tenho nenhum. Não que me lembre. Minhas memórias de criança pequena são sempre em volta da minha avó contando histórias pra gente. Tenho histórias preferidas que ela contava e tenho trechos memorizados dessas histórias até hoje. Mas não livros.

Hoje, como mãe, estou descobrindo a literatura infantil brasileira pela primeira vez. Apesar de conhecer os nomes dos grandes autores brasileiros (Ruth Rocha, Ana Maria Machado, Ziraldo, Lígia Bojunga, Pedro Bandeira, entre outros), o fato é que eu não conhecia suas obras a fundo. Devido à minha renovada paixão pela literatura e por querer que minhas filhas compartilhem comigo desse gosto, tenho comprado pra elas livros clássicos brasileiros (nós moramos no Canadá).

Quero compartilhar aqui no blog as minhas descobertas através de resenhas e posts falando mais sobre esses autores e ilustradores que têm conquistado nossas estantes e corações.

Vem comigo?

É a sua vez de compartilhar: qual é seu livro favorito da infância?

Uma estrada cheia de letras

Exemplo é tudo na vida

Exemplo é tudo na vida. Essa é minha Rafaela em 2005,com 1 ano e 10 meses

Uma estrada cheia de letras

Enfim chegou o dia de minha estréia. Fiquei um pouco apreensiva: uma médica em meio a três jornalistas hábeis com as palavras. Devo dizer que não são as diferenças que nos unem e sim as afinidades. Então, somos mães, adoramos um livrinho e, além de ter algo a dizer, queremos ouvir o que há para ser feito para que nossos pequenos se tornem pessoas incríveis. Acredito profundamente que essa transformação esteja relacionada ao repertório que oferecemos a eles: da música, passando pela nossa conversa com um vizinho que encontramos no elevador, e chegando em algo palpável e classicamente relacionado à educação, que é o livro. Ah, o livro! Tenho um amor enorme, do tipo extra G, por livros. O cheiro, a cor, as letras, a capa, tudo me atrai. Tenho muito mais livros do que consigo ler. No entanto, o ter me conforta. De quando em quando os pego, folheio, grifo uma frase e volto a guardar. Como todo bom amor, mesmo não estando tão presente, às vezes, eu sei que ele está lá, ao meu alcance.

Tudo começou com Monteiro Lobato e sua Coleção, em capa dura, do Sítio do Pica Pau Amarelo. Letra grande, alguns desenhos simples em preto e branco e um encanto sem fim despertado. Para completar, uma prima uns anos mais velha que, naturalmente, lia mais rápido e com melhor compreensão; uma outra prima, com a mesma idade que eu e uma irmã mais nova, que, politicamente correto ou não, dá uma melhorada na nossa auto-estima! O clube do livro estava formado! Entre gozação sobre “você não entendeu nada e só leu” até realmente chegar na troca de informações e impressões. Interessante pensar sobre esse ponto de vista: tínhamos um clube de livro e não sabíamos! Ainda nessa época, década de 70, passava o programa do Sítio na Globo. Nossa imaginação misturava-se com o que víamos e tudo, tudo parecia possível. Como, de fato, tudo é possível quando fazemos a leitura por completo, não só se deixando conduzir pelo escritor(a), mas também utilizando nossos caminhos de interpretação.

E é esse caminho, o meu, que construí a partir de tudo que foi me oferecido na infância, pelos livros lidos, músicas, cheiros, lugares que conheci e vivi e principalmente pelo exemplo de ter uma mãe leitora, com a cabeceira da cama sempre com uma pillha de livros e um pai que lia mais pontualmente, porém sempre algo diferente e muito interessante aos meus olhos. É exatamente esse caminho que me capacitou e me dá a possibilidade de mostrar como se abrir e criar novas ruas, avenidas, estradas para o pensamento. Diferentes e melhores, sempre melhores!

Prateleiras de memórias

Nunca tinha parado para pensar de onde nasceu o meu amor pelas palavras. Até chegar a hora de estimular os meus filhos a ler. Desde então, uma enxurrada de lembranças começou a brotar. E eu agora vivo me perguntando: como pode elas terem ficado guardadinhas por tanto tempo, ali, em um cantinho, sem eu nem me dar conta?


Minha formatura da alfabetização e um dos livros mais importantes
da minha infância: O Caminho Suave! :)

A primeira imagem que me vêm à cabeça quando penso no assunto é de uma Mic com seis ou sete anos, sentadinha em frente a várias folhas de papel, um grampeador e lápis de cor, na mesa da secretaria da escola da minha família, onde estudei até os 10 anos. Como minha mãe, tias e avós trabalhavam todas naquele lugar, era ali que eu passava as minhas tardes, depois da aula acabar. Impossível não absorver tudo daquele ambiente, cercado de livros, né?

Pois se enganou quem achava que eu passava minhas tardes desenhando. Na verdade, eu escrevia historinhas, algumas que a minha avó jura guardar até hoje. Me lembro bem da Vaquinha Meméia, que distribuia leite para os animais da fazenda, uma de minhas “obras” de criança. E fico emocionada ao ver Rafa e Juju virem todos felizes ao me entregarem livrinhos que eles mesmo fazem, quando desaparecem por alguns minutos no quarto. Estaríamos nós no caminho certo?


Me lembrei que tinha um disco desses e amava!

Outra lembrança deliciosa que me veio foi o meu livro preferido quando menina. Ele era enorme (ou eu que era miúda demais?) e tinha os principais contos dos Irmãos Grimm. A historia preferida, que a gente ouvia infinitas vezes? Rapunzel. E nesse mundo de fantasia, também faziam parte as historinhas com seus disquinhos coloridos. Eram horas e mais horas ouvindo as princesas cantando, as bruxas nos assustando, os príncipes trazendo um final feliz… Fui pesquisar e achei umas coleções que tentam reproduzí-los, só que em CD. Preciso comprar pra criançada aqui em casa!

Dos livrinhos de criança, evoluímos para o bom e velho Gibi. E, em minhas viagens até a banca de jornal, para renovar o estoque aqui de casa, parei para pensar o quanto eles foram fundamentais para o meu amor pela leitura. Ir ao banheiro e olhar para o lado sem encontrar revistinhas da Turma da Mônica e Tio Patinhas era o equivalente a viajar para o Nordeste e não ir a uma praia. Impossível! Quantas vezes me acabei de rir com os planos infalíveis de Cebolinha e Cascão, ou torci para que pelo menos uma única vez eles conseguissem roubar o Sansão? Ou para a chuva surpreender o Cascão e ele finalmente tomar um banho? Ah, a infância…

É nesses momentos que eu começo a perceber o dedinho dos meus pais e influência que eles tiveram para me tornar o que eu sou hoje. Pequenos e grandes atos, que fazem toda a diferença na vida de uma criança. Então vamos colocar essa turminha para ler? Eu já comecei a colocar a mão na massa, e pretendo contar aqui para vocês as nossas aventuras! Não deixem de voltar!

PS: Antes que perguntem, eu sou a menina de cabelos curtos, na fila de trás, a segunda da direita pra esquerda! :) )

Era uma vez…um gibi!

Das lembranças que tenho de quando era pequena, ali pelos dois anos e meio, uma das mais vivas me remete a um tempo em que eu sentava no meu peniquinho azul, cruzava as pernas e pegava um gibi pra “ler”. Meus pais guardam inúmeras fotos dessa época (ah, cadê privacidade?!), em que eu passava horas folheando os quadrinhos do Tio Patinhas com cara de quem estava entendendo absolutamente tudo! 

A relação com os gibis foi evoluindo durante minha infância e houve um momento em que meu pai, pra alegria das filhas, fez assinatura de uma coleção. Nossa casa era cheia de “letrinhas”. Não me lembro de muitos livros infantis nessa época, mas de muitos, muitos gibis. Os da Disney foram os primeiros, depois vieram os da Turma da Monica e, perto da adolescência, eu e minha irmã descobrimos um que, acho, quase ninguém conheceu: o Condorito! Alguém aí lembra disso?

Olhando pra trás agora, percebo que as coleções, sejam elas de gibis ou de livros, sempre fizeram parte da decoração da nossa casa. Meus pais investiam em livros clássicos, daqueles títulos que todo mundo deveria ler um dia. Era o tesouro que guardavam, com carinho, pra minha irmã e eu. Não me lembro da minha mãe ou do meu pai lendo pra gente, hábito que hoje eu e o Rô cultivamos com os meninos. Mas me lembro do exemplo deles, de deixar os livros ao nosso dispor, de ter sempre o jornal do dia em casa, de guardar livros que trocavam de mãos na família e escondiam dedicatórias cheias de significados.

Pois bem, acho que o primeiro passo pra estimular os filhos a ler é esse mesmo: deixar os livros, os gibis, as letras, enfim, à disposição deles. Porque o primeiro estímulo me parece que é visual: a criança tem que ver e perceber os livros, os diferentes tamanhos, as cores da capa e etc. Depois, o interesse pela história que está lá dentro é outro aprendizado. Não há criança que passe imune a um passeio por uma livraria ou um banca de revistas, daquelas bem amontoadas (mesmo que dividam atenção entre o colorido dos livros e gibis e a tentação das balinhas!). Lá em casa é sagrado: ao menos uma vez por mês, tomamos um cafezinho na nossa livraria predileta no final de semana e levamos os meninos junto. Não necessariamente pra comprar gibis ou livros, mas pra estar ali, no meio deles, experimentando o ambiente. :)