Sexta feira passada, fui buscar a Beatriz na escola, e ela trazia em suas mãos uma preciosa pasta amarela. Perguntei o que seria aquilo e já tentando abrir para ver, ela, no alto de seus 2 anos e 7 meses, me impediu. Explicou-me, de seu jeito, que na pasta estava sua tarefa. Seus irmãos têm todos os dias, e ela, nunca. Ainda bem! No Maternal ninguém precisa reforçar o aprendizado em casa. Mas o curioso foi esse poder que ela sentiu por ter também algo que os mais velhos por vezes praguejam e tentam deixar passar. E igualmente me surpreendeu o fato de ela levar ao pé da letra a indicação de sua professora: “Um livrinho para ser lido em casa!” Se era um livro para ser lido em casa, não poderia ser aberto no carro. Certíssimo.
Chegando em casa pudemos enfim chegar ao livro. E o que me chamou a atenção foi a “caderneta de empréstimo de livro” da minha pequena! Na foto não tinha nem um aninho… E já alugando livros na biblioteca!

Desde quando uma criança pode gostar de livros? Ou melhor desde quando um bebê pode se interessar por ele? Nos dias atuais é até covardia! Temos livrinhos que são brinquedos de banho, livrinhos de montar, de apertar e ouvir…Mas em todos esses é necessário alguma interação do bebê com o objeto.
E se tentássemos antes ainda? Eu tenho uma boa amiga, a Vicky, que mesmo sem imaginar um motivo educacional lia para sua bebezinha. Para espantar o tédio e o silêncio, fazia a leitura de seu livro de cabeceira em voz alta. Estando a menina dormindo ou acordada, ela lia. Imagino minha amiga com o livro na mão, copo d’água por perto, afinal a lactante tem uma sede incrível, e as palavras sendo ditas, com cadencia, para uma linda Julinha. Ela me confessou que passava dos livros e lia também publicações semanais para que a bebê tomasse conhecimento. Lia a Veja e a Veja São Paulo. Pude imaginar como foi a leitura do livro, agora a da Vejinha não consegui alcançar.
Alguns anos depois, numa palestra dessas em Livraria, estive com alguns feras da Literatura Infantil que abordaram o assunto. Assim que vi minha bebê na caderneta da biblioteca, lembrei-me do Ziraldo, amado escritor-ilustrador. Quando perguntado como e quando estimular a leitura infantil, ele generosamente partilhou uma história vivida em sua família, com seu neto. Ou neta, agora não sou capaz de lembrar. Mas lembro- me bem da sua história. Ele descobriu que sua filha lia clássicos da Literatura Infantil para um indefeso bebê que nem sabia rolar no berço. Incrédulo, perguntou a sua filha o porquê desse habito. E com bastante naturalidade ela responde ao pai que os bebês precisam se acostumar com sons de coisas boas.
Se faz sentido ou não, nem eu, e acredito que nem mesmo o mestre Ziraldo sabe. Mas uma coisa é certa: no principio era o som, depois vieram as palavras e o amor a elas.