Eu não sei você, mas eu não resisto a livros novinhos dando sopa na biblioteca. Aqueles que nem dá pra você abrir as páginas direito porque ainda não foram folheados. Aqueles sem nenhuma orelhinha dobrada. Quando eu vi Anna Hibiscus na prateleira dos novos livros, eu peguei por dois motivos. Primeiro, porque era novo. Segundo, porque tinha uma ilustração linda na capa (eu adoro ilustrações e muitas vezes julgo livros pela capa sim!). Não só isso, mas a menina na capa era negra, o que me chamou a atenção, já que é raro encontrar protagonistas negros em literatura infantil.
Eu me apaixonei pela história de Anna Hibiscus. Ela mora na África. Na linda África. Com seus irmãos gêmeos, pai, mãe, tios, tias, primos e avós, todos na mesma casarona. A mãe é branca, canadense, e se mudou para a África (a autora não especifica qual país) quando se casou com o pai de Anna.
O primeiro livro da série é dividido em quatro pequenos contos, contando aventuras da menina Anna. Na primeira, a família sai de férias para a praia, só o pai, a mãe, Anna e seus dois irmãos. Mas Anna estranha estar sozinha com sua família, já que vive com tanta gente na mesma casa. Acaba que a mãe de Anna também acha trabalho demais dar conta de tudo sozinha e os pais de Anna resolvem chamar o resto da família para as férias. Achei esse conto lindo porque mostra como as famílias se ajudam na África, esse senso de comunidade, de família, que é tão raro aqui na América do Norte, e é tão familiar na nossa cultura latina.
Na segunda história, a tia de Anna, Comfort, está para visitar a família. Ela mora nos Estados Unidos. O avô, pai da tia Comfort, fica receoso sobre os novos costumes da filha. Se a filha vai lembrar como as africanas se vestem, se vai saber comer com as mãos. Anna liga para a tia pra lhe dar o recado. A família se surpreende quando a tia Comfort chega vestida a caráter, como toda mulher africana se veste. Escondida, ela vai na praia de biquini, mas no fundo ela manteve suas raízes. Esse conto foi super querido pra mim, que também sou imigrante e luto com esse equilíbrio de tentar manter as raízes enquanto tento adotar uma nova cultura.

(fonte)
O terceiro conto mostra meninas pobres que vendem laranja na rua. Anna fica com inveja das meninas, ela acha super divertido o que as meninas fazem que quer vender laranjas na rua também. Escondida, pega laranjas do seu quintal e vai pra rua vendê-las. As laranjas de Anna são melhores que as das meninas, que acabam não vendendo nada e não levam dinheiro pra casa naquele dia. O avô de Anna vê a situação e ensina a lição para a neta, que o que aquelas meninas fazem é trabalho, e não brincadeira. Ele obriga a neta a trabalhar no dia seguinte e doar todo o seu ganho para as meninas pobres. Anna se sente grata por não precisar trabalhar para viver.
Na última história, Anna vai pela casa atormentada pela ideia de ver neve, seu maior sonho. Ela então recebe um convite de sua avó materna para visitá-la no Canadá nas férias de verão. A vontade da menina é tanta de ver neve, que ela pede pra vó se pode ir no Natal, quando tem neve no Canadá. E assim o sonho de Anna Hibiscus se realiza.

(fonte)
O livro é bem curtinho. O texto é uma delícia de ler. Frases curtas, direto ao ponto e bem poético nas descrições da África e do dia-a-dia da menina Anna. Eu achei o máximo saber mais sobre a cultura africana, onde as famílias nomeiam seus filhos com palavras comuns do idioma inglês como “Chocolate”, “Anjo”, “Double Trouble”, Tio “Domingo”, sem ter um equivalente na sua língua local.
Este é o primeiro livro de Atinuke, escritora nigeriana que vive no País de Gales, no Reino Unido. As lindas ilustrações em preto-e-branco e traços finos são de Lauren Tobia.
Infelizmente o livro ainda não foi traduzido para português. Tentei pesquisar se alguma editora no Brasil tem planos de publicar esse livro lá, mas não encontrei nada. Espero que sim, porque os brasileiros vão se identificar muito com Anna Hibiscus.











